domingo, 29 de março de 2015

O RUMO DO POETA


Toma teu rumo, poeta.
Trabalha, chora, peida, vive.
Não tem nada, na certa,
que tu tenhas que ninguém tive.

Trabalhas, poeta,
e defende teu futebol no declive.
Sobe morro, desce esporro
que teu coração partícipe,
só escreve do que à pena serve
e só condiz com Nínive,
se assim disser seu contracheque.

O mundo não espera, poeta,
semeia derrotas,
as tuas rimas tortas, quisera,
de nada adianta diante das pragas que nascem no teu quintal.

Te apruma poeta,
que quem corta não é a lâmina,
é o samurai.

BAPELOO


Quando nunca existiu, precisou a inventada,
        

   desde quando

Bapeloo caminha as eras a passos górdios.


Funciona assim: todos – todos mesmo –
já estavam quando Bapeloo não tinha aparecido.

Foi quando Ela fez que todos
– disse todos! –
inventassem que a partir
dali Bapeloo era fundamental.

Surgiu as guerras, a fome, a internet e Bapeloo alimentava
as contradições das pessoas até que
se tornasse a grande puta amante da história.

A Bapeloo era aquela pedra no meio dos macacos em 2001.

Era a pílula vermelha e a azul.
Nem Foucault, nem Agambem sacaram a Bapeloo,
mas queriam...

Dizem que nos últimos dias,
Augusto dos Anjos virá rir dos homens e das putas.
Virá cavalgando um verme gigante
(Moadib, príncipe de Araque)
para fecundar a terra antibapeluana.

Quando os cromossomos retornarem, daí,
a 46, dizem que Bapeloo volta
com todos os seus sacerdotes, seus Edis,
vomitando altares, regurgitando dízimos...

Ou quiçá, recalibrando o eterno-retorno,
o homem aprenda a cavalgar a Bapeloo

...Porque a necessidade dos homens é necessária!
  

       Quiçá a humanidade para além da humanidade
               venha
                             num bater de asas.
                                                             
                                             Só que não.
                                                            É ave Bapeloo,
                                                                                 Amém!

                                       •    Papel higiênico
                                       •    pasta de dente
                                       •    Leite
                                       •    salada pronta
                                       •    saco de lixo
                                       •    yogurte grego
                                       •    pão integral
                                       •    regador
                                       •    queijo branco
                                       •    chaleira
                                       •    peito de peru
                                       •    saboneteira banheiro
                                       •    margarina
                                       •    vanish
                                       •    limpa vidro
                                       •    sabão de coco pedra
                                       •    café
                                       •    ferro de passar roupa.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A PALAVRA ABRIGA



a função do poeta é brigar com a palavra
até que a palavra vença
e a palavra vença é palavra como é palavra
a palavra avenca. se dentro da palavra havia palavras,
a palavra já nasce poema e o poeta que

pena
volta a rasgar seus poemas na inútil certeza
de que só a palavra a vença

                                        a   tensa

                                             a    venta
                                                                                
                                                                       (num jogo de iguais, quem vence é vendeta)


                                                                       Yo no creo en poesías, pero que las hay, las hay.

O JARDIM DO ZEN

Só se vive um poema quem cultiva um jardim. o jardim só se faz com ervas daninhas. só experimenta o zen quem vem ao jardim, porque no quintal da nossa vida, não há jardim sem ervas daninhas. virtuoso não é o mestre sem ervas daninhas, virtuoso é o mestre que as arranca todos os dias. só se arranca as daninhas com a mão. o próprio corpo é sempre a melhor ferramenta. aí o corpo se educa, se dobra para arrancar o mal – exercícios... mas a mão é a única ferramenta capaz de amar a erva que arranca: com movimentos bruscos o caule se quebra, a raiz perdura e na próxima chuva ela ressurge em sua petulância. a chuva é oportunidade única: ou faz brotar os picões, os pés-de-galinha, as tiriricas, ou deixa a terra fofa para arrancá-las. só se arranca os matos como quem convida. (os aikidoístas o chamam kokyu) todo movimento é convite é encontro daí se entende que o lugar da planta é ali e que só pela doçura ela sai: é preciso fazer com que ela saiba do desejo de sair.

você pode contratar um jardineiro: certamente terás um jardim profissional, é uma pena, a vida é para amadores. um jardim cultivado pelas próprias mãos é um jardim imperfeito como a vida é. um jardim cultivado por mim me cultiva: por isso no templo de Iwama, logo cedo, antes do primeiro treino, vamos todos ao campo. o movimento na terra respira o movimento do ser.

quando abandono meu jardim o mato nasce forte. quando abandono meu jardim abandono a mim. até aprender que as ervas daninhas também sou eu, eu devo cultivar meu jardim e meu jardim é a única coisa que tenho (porque ele é que tem a mim) até que eu entenda meu eu prá além. além do eu só a morte.

ANTOLOGIA




a vida é um vidro
de creme de milho
esquecido
num canto escuro de uma geladeira fria.


         certeza inviolável
         é cagar na calça.

        a mão que apedreja é a mesma que faz  poesia.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Remédio anti-erótico

Para resolver a virilidade do comunista!

quinta-feira, 17 de abril de 2014

HAGESHII


Aikido é estar conectado com o outro.
O princípio é o da amizade.

Conectar-se com o outro é compreender
o movimento que ele nos impõe,
para nos movimentarmos com ele.

Abandona-se o "eu quero" e passa-se a praticar o "estar presente" (hageshii).

 Se vier um abraço,

abraço com ele;
uma dança,
danço com ele.

Esvazio-me até que ele perceba
que o único lugar que interessa é o de estar para o outro.


Não se trata de "ser".
Quem diz que "é" solidifica.

Trata-se de "estar".

Quem "está" mobiliza, circula flexível...

Porque tudo que é flexível é jovem é novo.
Tudo que enrijece está condenado a sua ruína.
(Quem nos dera termos de volta a flexibilidade das crianças?)

O que é flexível reconhece a verdade da vida: não há verdade alguma.

Há que se compreender isso.
Estar sempre compreendendo,
sempre entendendo de novo e de novo e novamente...

Não se trata de concluir
(quem conclui é a morte!)
Trata-se de viver entendendo.

Daí é caminho

Daí é Aikido.
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Inspirado no vídeo: https://www.facebook.com/photo.php?v=645588345516453&set=vb.226565710752054&type=2&theater

Imagem retirada de: http://members.aikidojournal.com/public/is-o-sensei-really-the-father-of-modern-aikido/

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A VIDA, A ONDA ... O IRIMI NAGUE

Para tia Sol, Para Gabi e Para Caio




Esse mar conta uma história
eu, ela, nós e tu
Cada ponto, cada vírgula
a onda é reticências




O Mar é crônico
janelas paralelas quebrando 
na minha cabeça

Esse mar me conta suas histórias
de eu a tu a nós
E a vida é crônica nas suas espumas

Salpica como semicolcheias que me convidam:
assim nascerá 
a última sereia

Na boca do mar eu não sou eu
você não é você
somos somente nós
que se desatam em névoa
efêmera e se levanta

Castro Alves me dizendo: são espumas flutuantes,
meu rapaz

As ondas precisam dizer a nós,
e o que devemos fazer
- por respeito ao mar!-
é nos desatarmos

Assim como o amor não prescinde da liberdade
o mar nos relembra nas suas ondas...

Que a vida se faz pela fúria

Ingênuo quem supõe a vida
sem a bondade serena e generosa
da fúria

O mar é uma lâmina
afiada, uma revelação
indomável em que a cada
braçada, a cada respiração há
uma presença arrebatadora:
a da escolha

Não se escolhe uma onda
Aceita-se que venha, ainda
que nos tome de assalto
- é a vida - ainda que não haja
fôlego, ainda que pensemos
não mais ser possível
a última das nossas ações

E na queda, a onda quebra
não pode ser depois
e não pode não ser

A onda revela a violenta
ejaculação da vida
no momento exato infalível
e instantâneo...

E mostra-se apenas espuma

A vida é apenas uma respiração
breve, entre a primeira onda
e a próxima

Para além da fúria da onda,
só existe a leveza...
A espuma.

Toc Toc pequeno, verão de 2014

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

PARANUNCA



Música própria - Paranunca

(Uma canto de amor à minha Teleca Hurricane)


 O poema Paramóvel colou na cabeça. Era preciso expressar a sua música em música mesmo (a poesia deveria ser completa, deveria falar por si... Se a música do poema não da conta de si mesma - e precisamos de uma música que a re-decodifique - então temos um poema ruim? Temos uma música?)

Bóris Laobarenko, músico, sacerdote, poeta, filósofo, arquiteto, mas acima de tudo geômetra gimnopedista (isso engloba aquilo tudo) disse que conseguiu fundir o que eu só sei confundir: a música Paranunca com o poema Paramóvel. Estou curioso. Mestre Laobarenko sabe o que compõe. Sempre irretocável e místico.

(Acho que a religião existe prá isso: para fecundar a poesia e a música)

Óbvio que não é apenas um canto de homenagem a minha guitarra telecaster, (e não é apenas: um guitarrista sabe que a guitarra é um instrumento, por isso é sempre um tótem: é o instrumento que conduz a magia desse poético)... Du Pedrassi sabe bem disso. 


E assim é também um canto de amor por essa coisa selvagem denominada poesia, que eu não intendo, não intendo...

Venho experimentando a poesia sem entendê-la, o que não significa não trabalhá-la. Ambos os poemas - Paramóvel e Nênhepoesia -  foram escritos há um bom tempo atrás, acho que em julho. Ficaram fermentando, decantando no desktop até que seu sentido soasse doce e salgado, estranho como sabonete...

...Sim. Eu já comi sabonete. Faz muito tempo. Mas o gosto é inesquecível.

Daí que a Fer Morais estranhou a forma, por assim dizer, nova. É que o conceito de forma sai de outro lugar, como num desejo de superar meus cânones... Sempre fui, como crítico, leitor de poesia do XIX. Foi com o doutorado e com meu amigo Marcos Siscar que comecei a entrar no que muitos denominam de poesia contemporânea (dos Poetas Marginais prá cá).

A sacada foi começar a perceber que não se póde, nem se pôde, ser poeta sem estar a par da margem, como o mendigo que mora debaixo da ponte. Poderíamos daí tirar uma teoria sociológica, Benjaminiana, talvez, de que isso implica na condição econômica que sobrevém da poesia. Quiçá.

Poesia é forma. Conteúdo é prosa. Ainda que ambos sejam também ambas as coisas. E se é forma, para ser verdadeira (verdade = sinceridade, como querem os japoneses: "Makoto") só pode vir de um lugar: de dentro. Mas não pode fechar-se para o que está fora: o leitor, o outro, o hipertexto, o suporte...

Se vem de dentro é música e é preciso escrevê-la como que numa partitura (ainda que eu não saiba escrever partituras... Minha poesia é música incompleta? Eis outra tese possível.)

Que venha de dentro, que saiba de fora, estando forma à margem, em busca de pontes até que de perto veja que o fora e o dentro não sejam dois lados, mas o mesmo visto de outros ângulos...


Daí Guimarães Rosa: a Terceira Margem,

Daí Lenine: Como faz pra sair da ilha, pela ponte, pela ponte (para depois se beber nas águas da fonte).

É meu novo jeito que é o mesmo mas agora entendendo que se a poesia só pode ser poesia porque propõe um lugar específico de onde se olha e se lê o mundo, daí que toda poesia é necessariamente um software que denominaríamos "filosofia"...

... E a filosofia quando não é poesia é também filosofia, mas é menos. (Provocações aos amigos teóricos da literatura e filósofos...  Mas o Paulo Morgado e o Ricardo Carpin vão certamente curtir a sacada... rs).


(Se cito muitos amigos, é sem demagogia: é que eles me recriam, neles descubro quem sou... Tenho amigos tão generosos que sabem ser inimigos. Sorte minha: são inimigos íntimos, quando a compaixão não se confunde com mitigação).

Só.
Na dúvida, a música.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

NÊNHEPOESIA



é-me absurdo o não escrever
de poesia

se cada vez que decido
levanto
um copo de água
depois ia

em baçar-me
me anticorpando todo
até que não reste nem 3
do nenhum que sou

eu não quero
eu não quero
(só falta 1)...

tenhum rádio na
cabeça

e solta a música
não solta
sol ta

sentado à porta
um compondo um blues

essa nota
essa nota
nota

ainda bem que é tarde, se cedo fosse haveria escolha: o jeito agora é esse nenhum mesmo que canta na cabeça trilha sonora da solidão que minha vida

eu não quero
eu não quero
(agora, sim, a rima)

me mata
– vai, me mata
eu só tenho a música

bem imbecil
(agora tá coerente)

não há mais chance
ká-ya/chã-se
seja rã e lã-se
relã-se
como quem pisca em dados

eu e essa mania
de achar que não...
– isso ainda me leva!

eu não sei escrever, agora me deixa! que saco, porra!
não há lógica aberta nem minha, nem tua, lógica é fechada minha lógica está fechada porque 6 funcionários estão em greve, porque não vende e porque o ponto é ruim.

Tá bom,
vou comprar 1 kg e 400as prá por na massa
antes de salgar o feijão

aí eu quero ver
aaaaaaaa eu quero ver
neguinho pará de frescura
e querer colherada

1 kilo e meio de método!
meu deus! com esse dinheiro eu comprava uma guitarra nova

PARAMÓVEL


é sempre a mesma coisa e não para nunca é sempre a mes má coisa enão para nunca esse empre a mesa à coisa não paranunca nenhé não a messa essa laça que nem-me eu paro a tua nuca e que mesa que não para me tua que nem que minha fosse tua aí sim, ai meu deus qui há-há-há que é essa nessa que nunca luta
 S                       O                       C                    O                    R                     R                   O
ponto briseis
o eterno
ponto aquiles
eu juro juro juro que nunca mais, num camais, nunca, mais, nunca, mais, num ca mais a tua poesia não é minha é tua e essa mexa mosa, massa, maça, mesa, mesa, alguém me méda antes que o medo, que medá, me meça que merda alguém para à mesa, para a brisa, para raio, para peito, para quedas, para fixo, para fuso, para luto, para barro, para carro, para cada palavra que lato, lata, ato
se briseis à quiles
fato
para nada

para

além

para

é sempre a mesma coisa

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Homenagens a EU de Augusto dos Anjos

      Dia 3 de maio de 1907 Augusto dos Anjos fez um poema denominado "Gemidos de Arte". Ele publicaria o texto dia seguinte, se não estou enganado, no jornal da Paraíba denominado O Comércio. Não há, pelas minhas pesquisas até agora, rastro seguro de sua primeira publicação, minha suposição se baseia na citação que o poeta faz, em outro poema de sua única obra Eu (1912), denominado "Tristezas de um Quarto Minguante" (Este, sim, datado documentalmente por Francisco Assis Barbosa, em trabalho de pente fino das publicações do poeta em "Edição Crítica" (F.A. Barbosa faz um quadro de cada poema encontrado em qual veículo originalmente... Palmas para o cara!)
         
        Há muito mais a falar sobre os poemas da obra EU. É o que estou fazendo rumo à minha Tese de doutoramento. Por hora, seria injusto deixar passar o dia como aquele em que Augusto fez o poema "Gemidos de Arte", exatamente sexta-feira, 03 de Maio de 1907... 
       
         Essa é minha responsa, isso é o que devo fazer: como entender "aquela" poesia, do lugar dA poesia, da nossa sexta-feira 03 de maio, 105 anos depois daquela. Ou melhor, o que a poesia feita lá, nos diz sobre Poesia, para nós daqui.
             Estudar poesia é desafiar a morte. No meu caso, com o poeta da vida, de uma certa desvolução para que se possa a vida.
               
              Enfim aqui, minha singela homenagem aos mais lindos versos de minhas insônias. 





segunda-feira, 1 de abril de 2013

HAI QUASE




       Revista a dor
             do eu
      e nada no lugar.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

FUDEUS

                                                           (Para Du Bonfá)

Não se trata de dizer adeus a deus.
Trata-se, trata-o
para que nos retrate.

Para que os nós, retrate.
Para.
E que nos rearte.

Há uma gota de reza em cada poema.
Mas só se espera da reza, séria,
sua divirgindade profanada.


É preciso ser ateu para ler
o homem em deus,
dissecar o cadáver d´eus.

Se não o cadáver seca.
E num cada ver seco
não se pode da música ouvir.

Por isso os bons deuses todos devem
Ser comidos, comigos.

Réquiem Nódulos Operandi

– O poeta, sem modos,
saiu regulando, entrelágrimas,
Versos seus de dente ar dente.

Quem dera fosse mesmo o amor maior que as palavras
para que em toda boca grávida parisse deuses de primavera enfim

Mas e da plataforma as pessoas preferiram vender sangrar suas asas
em holocausto do conforto do solo – solo, era um barco à deriva...

Pronto, aberto o selo, restava surgir Edires, Waldomiros, fazendo sinos Soares
e da sala de jantar, no congresso corte-idiano decidiram ser a culpa dos nós.

Abandonaram a poesia.
A educação pela noite.
O fantasma da verdade que mora no atrás da palavra,
duvida do canto na boca, pés descalços...

Meu deus não havia pés descalços no dia daquele julgamento e tiveram a cara de pau de dizer não era nossa culpa Mentira! Mentira! Filha da puta...

Um fantasma no conto da língua,
Um fantasma no gancho do tempo,
No fogo de um curupira que fosse,
Na singela hora única de um langolier

Tomaram a ciência contra o peito – irmã caçula enjeitada das tetas gordas das hostes últimas máximas potestades – e chegaram ao absurdo de com ela fornicarem formigando o mundo até que chegasse Ufa, o anjo do apocalipse tocando suas trombetas de cherry-coke e rodelas de limão.

Os Edires Waldomiros que Soares são mensageiros,
são indicadores termômetros de perussadias no peito do deus morto

De que o dia dos justos que tem seus nomes gravados no livro
já ruge...
Glória! É que a chapa é quente!

Creiam na reza que reza rosa
Descabelada no útero santo de cada palavra profana
Que o tempo ruge,

Crede na poesia,

Crede, irmão, na Puta-Mãe Escancarada do Verbo
que só ela,
só ela,
nos salvará!

                                                       (E sarava!)

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A CHUVA


A chuva lava, leva, livra, louva, luva. Cada gota anuncia dúvida:
quanta dor cabia em cada junta. Junta a dor, junta a luta
(a garganta raspava rústica no céu da boca).
E, pântano de areia, fundo aspiro puxando catarro
parâmetro pedra, teia: era ferrugem do som, um ácido.

E veio a chuva,vulva, languidando o sol de verão: vívido cabaço.

E veio que nem moça nova, gozo de virgem, sonho de puta
no altar. Era forte, era jorro, era um jato de gozo, engasgado
e denovo era teso era um arco e uma flexa era um poço no ar.

Tive medo, tive medo. O desejo no susto, no espelho, abrupto.
Resultado da reza de muito, três passarinhos na eletrola de um mudo.
No mundo era o eu do eu meu deus e eus verão...

A-coado, A-sustado, A-coitado eu lavei meu perdão
um pouco. Inverno, inferno: era sonho do céu ejaculando
um ovo cada sonho que tive denovo

... “Oh chuva, vem me dizer,
se posso ir lá em cima prá derramá você”.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

TRÍPTICO DA CONTEMPLAÇÃO (o rio que passa atrás de casa)




Pássaros


Passarinhos melhor cantam quanto mais há sede. 
Daí vem a drosófila (um deus-filosofia que nasce 
da banana) galgando floco a floco que cada oxigênio desvisto: foram só umas retinas.
Na doença da árvore cada passarinho preto é uma
sombra que pousa na pintura.
Pintura não é – Que pena! – (fosse um quadro, era Renoir).








Bimotor


Austero é o ronco do ventilador: Supererói
tentando a todo vapor contra Gaia-Mãe (não 
existem tomadas nos troncos das árvores).
Não há facilidades na solidão, (nem nos regimes) 
mas o Sol gritando em soslaios na árvore (aquele 
passarinho preto, lembra?)... ah o Sol grita de 
susto que pula-pena, pula regime segunda – (que pena!) – feira.
Bastava uma sacolinha que fosse (daquelas no 
bolso prá cocô do cachorro): metia a cena dentro 
e corria pro rio – E salvava a piracema!




3ª Margem

Perguntaram pro veio como que se deitava as 
regra de dentro da cabeça. Disse quando a gente 
deita, a regra vem e deita junto Daí a gente 
levanta mansinho prá pegá as regra dormindo, de 
surpresa.
Tentaram. Deitaram e as regras. Mas esquecendo 
de levantar, dormiam com as regras e o cocoricó 
da segunda.
Procuraram o veio. Reclamaram, reclamaram que 
nunca dava certo. E o veio entrerrisos pergunta 
“O que num deu certo?”
Envergonhados, não fizeram mais perguntas. Dias 
depois voltaram (trôxas e trouxas) É mais um 
puxado no meio do rio.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

E-coação



O café não me desce,
Quantas verdades cabem em meias palavras.
Quantas maldades em meus sorrisos amarelos.
Quantas cores cabem num tom pastel.

O café não desce,
Quantum verdade de uma palavra.
Quantum mal um dente podre.
Quantum lápis pinta meu só.

Na física quântica da minha vida,
Cântigas vezes nem fiz, a lição de casa
Na rua da lamargura de cada dia.

Fiz um café novo denovo, um ovo
De Colombo sabemos de ovo:
É onde escada essa canção.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

MOROTETORI


Seria possível apreciar o inimigo?
aprender com o inimigo?

Qual é o lugar em que a ofensa não existe?
 – No coração que é leve.

E quando ofendem nosso coração?
Aí me pergunto:
 – Meu coração é leve o bastante para não carregar ofensas?

Se a dureza dos outros nos magoam,
eu me pergunto:
 – É, meu coração, tão flexível?

A dureza é amiga de tudo aquilo que quebra.
Duras são as juntas dos enfermos,
flexíveis as do jovem.

Mas não choram, as crianças, quando caem?
Mas choram de susto,
raras vezes sentem dor.

Quantas vezes ainda somos crianças?
Mas crianças de corações duros?

Se todo golpe é um presente,
toda energia é uma dádiva...

Por que a desprezaria?
Por que a recusaria?

Sou fraco, e assim não posso...
Ou sou fraco porque não quero?

Se o golpe é assim tão forte,
porque ele não passa suave?
... deslizando ao lado: suave nas águas do lago,
...sempre em paz?

Se o coração é leve,
posso ver, sem sustos,
na clareza da verdade de que a vida é somente o nada,
e que não há golpe algum.

Toda energia passa,
eu passo e tudo simplesmente passa,
E só o nada é estável.

Porque não há nada para acertar.
Não há nada para revidar.

Se tua força cai sobre mim,
que eu a veja, que eu não a recuse,
mas que eu não a tenha: não é minha.

Se tua força é assim tão grande,
pois que passe como a chuva,
pois que, tempestade, lave meu rosto
e molhe minhas plantas,

Mas que eu não a contenha,
porque não posso ter o que não é meu.

Saber do não ter da vida,
porque viver é ver o tempo nos perder,
desapegar-se tanto,

A ponto de deixar que a energia passe,
Para deixar que a vida flua.

Isso é aikido.