terça-feira, 22 de março de 2011

PROFISSÃO DE FÉ ou MEUNIFESTO ANTROPOCÓSMICO


Não, não mais teime.

É no mundo que faço versos.


Estou rodeado dessa massa asquerosa,

deste lodo quente modorrento,

deste modo surdo que me aplaca o gozo.


Quero sim,

Quero o mundo para além de mim,

Quero o eu pr'além daqui:


Mas não venha me dizer com teu sorriso hipócrita,

o que cabe ou não nos meus versos.


Não quero tua boca aguada,

teus lábios parados como num robô,

dizendo que me quer como letras em um refrigerador.


Eu quero a métrica mais selvagem e a mais formal, a mais formosa.

Quero a aritmética do verso em suas mais vorazes ataduras,

Em suas quadraduras mais gostosas,

Roçando meu teso em paixão.


Sou um poeta no mundo e não do mundo,

Sou um poeta do azul, do verso por excelência,

Mas não porque isso te agrada:


Por que faço sim o que quero...

E que o leitor vá gastar sua retórica de merda,

lambendo pastel em alguma padaria suja,

enquanto, currado por animais,

lava a bunda na pia batismal e histérica do modernismo de 22.


Meu decassílabo de pinto duro,

meu gosto, rosto armado até os dentes,

minha pica santa louca e bilac

com que navalho os sons de minha mente.


Eu quero reto o teto e largo o toldo

(quando todo lado feito é lodo seco

quero meu metro bobo todo gozo).


E feito pouco tanto quanto quero

meu verso rouco e rouca voz é louco

mundo pequeno de dizer eu quero


Insano é manto prá cobrir meu tosco

me centro todo e do teu lado quero

que de uma vez por todas o meu canto


seja mesmo livre pra mais que verbo

até que o metro que eu seja, pouco

até que louco eu penetre o quero.


Até que insano eu devore todo

verso arcano que me jaz funesto


Porque leitor,

meu pobre e pobre leitor...


Não há nem morte que me abafe o verso.

quinta-feira, 17 de março de 2011

COR AO SOM



Um poema,

um pomo,

um pedaço

redondo.



Um pombo

que volta

retrazendo

meu tom.


E num tomo

(revolto),

cadafalso

de ação,


Eu proponho,

eu tomo,

cem palavras

ao chão.


E retomo

e redomo,

Penso peito e choro:

Leão.


Se sou tolo

respondo:

é mais alto

meu tombo.


Se sou lago

escondo,

É mais falso

meu chão.


E se eu falo

me assombro:

tem mais calo

meu ombro.


Só não largo

meu pombo:

o meu som

Coração.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

AS REGRAS DA ARTE


Em 21 de fevereiro,
foi o poeta condenado à forca.

Era o final de sua vida de crimes,
dos seus atos lascivos,
de atentados e atentados à liberdade:

Os medíocres cantavam baladas,
Os incapazes champanhavam vitórias,
Os inúteis avançavam: quantas patentes acadêmicas!
Os funcionários tiritavam em gozo!

Diziam que o poeta enchotava a felicidade do mundo:
- Roubando palavras das bocas inocentes, ele as embebedava de beleza
até que as coitadinhas voltavam para casa de calcinhas arriadas,
chorando e chorando, molhadinhas, breacas de tanta música e rimas.

Sequer escapavam as palavras do dia-a-dia:
carro, buzina, metrô, barrinha de cereal...
E dizem,
que de um copo de leite, ele um dia fez uma flor!
E que numa fumaça de cigarro, ele fotografou um verso de amor:
- Sua poesia fazia mal à saúde.

Culpado em três instâncias: ministérios do trabalho, educação e saúde,
ele foi obrigado a acordar cedo,
a vestir a gravata,
a ler o evangelho
e a beber o sinal da cruz
(com o mesmo copo de leite com que ganhara
o Nobel de literatura).

Foi encontrado morto em sua cela
(já cogitava os rumos da bravata jurídica).
Em meio àquele sangue todo,
um poeta caído e um sorriso lavrado nos lábios...

Em seu peito,
3 Sonetos dançavam em roda,
e, à queima roupa,
7 redondilhas trespassavam, ensanguentadas,
o miolo mole de seu coração.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

BACANTO



"O amor, esse é difícil"
(A. Abujamra)


O desejo, faz-te rível
O amor, esse edifício.

E há que se galgá-lo,
a galgos longos, gordos, bem cachorros...

E lá no topo da escada
Escheriana,
banhado sob o céu d'estrelas
(das que encharcariam Orfeus e Dantes na boca do Inferno),

Havia que se lançar, em partituras, gotas e mais gotas de Beatriz.
(Sem elas, que seriam das florestas caducifólias de moinhos-de-vento?)

Ou, quem sabe, um soco bem dado:
e um soco bem dado,
é somente um soco só.

Já um soco melhor
é um socorro:
e mora nos quintais da poesia.

Um soco melhor ainda,
na boca desavisada do estômago faminto de Deus...

Bom...
Já isso é mais que um poema:
Chega ao mágico e graúdo estado
de Onomatopéia.

E a última vez que se viu pela Terra,
Ela bailou como champanha
nas bocas banguelas
de todos os Santos
nos seus dias de pecado e luxúria.

Chamaram-na cometa
e, bailando como água-viva,

Tomaram de assalto seu nome,
Tomaram aos berros seu corpo,
Tomaram de azul os seus olhos,
mas de nada adiantava.

Nem os portões da beleza celeste,
nenhuma palavra
emparedava sua louca fúria de gozo.

Nem sentença
Nem sorvete
Nem soberba
ou Satanás.

Sua cintilante cauda, o cometa,
Somente um poeta grafitando às pressas
na fria cera do escuro muro da História:

Em cada palavra, um conserto por sinfonia
Em cada santa maldita letra que eu via
Em cada ideia de cada palavra
morava somente um nome:

O Amor era Ele mesmo,
como em um concerto de Johann Sebastian Bach.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

COPO DE FÉ - XX Prêmio Moutounée de Poesia



Café expresso no meu copo plástico,
a fé expressa no teu corpo fátuo.
Cadê o néscio, o meu soneto vítreo,
para explicar o meu amor silábico?

O amor é tácito e o furor é cérebro;
escusa flácida em meu peito cínico
revólver verbo prá abater-me mântrico
ou beijo ácido e o torpor do sexo?


Se é este branco, em negra seta, alvo;
o lado oposto da palavra é verso
e se eu te explico que te quero é fácil.

Mas quando existo na caneta eu pênsil...
Prá cada ação da minha vida há um laço,
e em cada tom que não me verte é verso.

_______~oOo~____________

Este foi o poema com o qual conquistei, em Novembro de 2010, o Terceiro Lugar no XX Prêmio Moutonée de Poesia. Confesso, fiquei muito feliz! Primeiro concurso que concorro e já ganho $500!!! Quem diria? Rufem os tambores: Poesia enriquece!!!!! hahahah.

Enfim, foi muito legal ter o poema publicado em uma antologia e conhecer pessoas que se interessam por essa arte tão próxima, mas ao mesmo tempo, tão alienada do cotidiano.

Segue abaixo algumas fotos que pude garimpar na internet.
(Agradeço especialmente à Prefeitura de Salto e à Schoba Editora pela confecção do concurso e pela publicação e distribuição da obra e das imagens)














Mesa cheia de livros. Seu poema dentro. Para as outras coisas existe Mastercard!















Bom, no meio, todo sorriso e iluminado, eu mesmo e minha barriga velha companheira (estamos nos divorciando). Do meu lado direito da foto André Luiz Alves Amora e do esquerdo Sérgio Bernardo, respetivamente os 2º e 1º lugar no concurso.

Eis o grande prêmio de um evento como esse: conhecermos nossos pares. Localizamos, então, um tipo de gente estranha que gasta seu tempo combinando palavras. Escrever é uma atividade muito solitária e quando encontramos outros que se atrevem a tal solidão, somos tomados por um sentimento fraterno muito bom... Particularmente, eu chamaria esse sentimento de "humanidade".

Aproveitei a oportunidade e comprei o livro de poemas do Sérgio Bernardo. Jornalista de Nova Friburgo, ele busca no asfalto, na cidade não vista, em seus cantos e vielas, recriar a lira, reinventá-la, devolvendo à flor do chão, a flor do verso. Muito legal. Recomendo!

(BERNARDO, Sérgio. ASFALTO. Paraty, Selo OffFlip, 2010) - [O meu, já autografado...rs]

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Do Amor nos Tempos do Hoje


Não... A vida não é tão séria mesmo.

E, ainda assim, há de haver ternura, carinho...
E um pouco de desconfiança.

Quando o destino nos surpreende, e nos apresenta alguém,
Nós imediatamente perguntamos sobre os possíveis caminhos que a vida nos trará:
"Seremos felizes?"

Mas é claro que seremos felizes! Não há porque temer!

Afinal, ser feliz não é viver em festa!
Ser feliz é debater-se com o mundo.
Ser feliz é ter a persistência pela palavra...


É ter certo que um bom poema (e viver é o mais incerto dos poemas)...
...Só se pode ser declamado assim:
Como quem escreve com os próprios passos,
Com o nosso teimoso caminhar, sempre como quem celebra uniões, vitórias e encontros.

Que esse caminhar nunca nos deixe esquecer que ternura é,
Mesmo,

Um sinal de fortaleza...

E que respeito e amizade são coisas que se constroem
Sempre em união com os outros.

Não. A vida não é séria.

Ela é uma comédia a ser vivida, como quem passa desatento pela rua.

E ainda assim...
Desatento como quem nunca se esquece daquilo que mais importa:
De que o ser humano foi feito para estar junto.


É óbvio que quando menos se espera, tudo pode parecer complicado.
Ah... Mas viver com desafio é mais gostoso!

Viver só se torna relevante quando tomamos uma boa dose de displicência
(Na verdade não é displicência: é confiança na própria vida).

Talvez nem a vida exista por si mesma!
Talvez ela seja uma invenção nossa:
A mais gostosa e engraçada invenção que as pessoas já fizeram em suas existências.

E o resto?
Então não há mais nada do que a invenção na cabeças das pessoas?


Há sim:
E se chama amor!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A Inviolável Certeza do Ser

Criança barrigudinha na loja de doces.
Entre o desejo e o doce,
Toda vitrine é vidro.

Criança barrigudinha na loja de doces.
Entredentes, o sonho:
O sonho, este deus infante.

Criança barrigudinha na loja de doces,
Na vitrine, vidrada...
Entre o desejo e o gozo:

Nem deus, nem diarréia, nem nada.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Mari, Teresa Minha


Da vez primeira que vi Mariana,
Jamais pensaria que sua teimosia
ainda maior que suas curvas
me poriam escravo, andando em círculos.


A segunda vez que vi minha Mari
Puz a chamá-la de minha.
E depois aprendi a fazê-la minha
(mas isso foi depois de muita ferida e muito pus)

A terceira vez era tarde (passava da meia noite,
seu pai não queria que eu dormisse em sua casa).
E daí ficou tarde, muito tarde...

Era tarde demais para obediências,
tarde demais para poemas, para sonetos:
toda a atmosfera se transformou em perfume...

E cada nuvem no céu transportava (e o faz até hoje)
uma flâmula ornamentada com cantigas de roda dizendo,
a frase mais simples e doce
(A frase onde moram, mesmo quando a contagosto,
os mais doces e lindos e intensos poemas de amor.)
– Eu Te amo.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Soneto em Hokusai no 01.



Se há um soneto em cada som alado
e em cada lado há um som mortal discreto,
me corre solto no palavreado
um tom que tão formoso e assim correto...

Teve suas chances de me ser um calo
e teve sonhos para ser um elo:
não pode ser meu som um sonho ralo,
nem vou deixar que fique só no quero.

No alto em sua volta, volta força
de meu choro, que sempre forma um barco
cheio de horrores em que eu seja imerso.

Sou feito desta alma, forma e vento
que enforma a água, o sopro violento...
Uma tormenta, Uma onda, um Soneto.

sábado, 8 de maio de 2010

Nina


(À Souza Cruz)

Minha paixão, minha doença,
Adeus.

Adeus meu vício,
minha palavra presa,



Meu vulcão-desejo
pintando glamour em tons de cinza:
Adeus.

Adeus à cada ponta de quimera,
junto às caras torcidas
de minha saciedade até a última expiração...

Adeus arremate do gozo,
ponto final do sexo.
Às reticências como auréolas,
místicas,
nas escuras e quentes noites de motel.

Agora basta!
(Bosta)

Para cada palavra que faltou dar-te,
deixo um adeus trocado como carta de trincheira,
como beijo de mãe que planta o filho morto,
como paixão de carnaval que nasce em óbito
(inda que cravada a ferro e fogo nas moles placas da memória).

Adeus para sempre e de uma vez por última:
Adeus pela certeza de seus prazeres falsos,

Pela caridade esquálida, esconderija da vaidade tua:
de ver teu lábio áspero em minha boca,
de ter teu hálito de guarda-chuva em minhas doces tosses de manhã.

Adeus meu vício, minha patologia.
Adeus meu garboso sonho de elegância e pigarros.

Prá onde vou, vou só
(E mais, não cabe dizer-te).

... Doces e virgens,
são as sementes do que ainda não fui.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O SHUGYOSHA


O Shugyosha procura o Caminho,
Aproxima-se o rigor do inverno.
Provisões poucas, previsões roucas:
Mente tranquila, lâmina da katana.

quarta-feira, 10 de março de 2010

CAPET




E foi aos 33 que conheci o Diabo.
O Senhor de outras eras, com rabo de cavalo.
(O chapeu côco não se ajustava nos chifres).

Olhou-me nos olhos e, solene, me disse:
– Enfim sós.
Mais cocho que belo,
confesso,
tive certa pena.

Foi, sempre, o grito de rock pulsando no meu coração.
Antes de Cristo/Depois de Cristo,
foi sempre o sucesso
intermitente em todas as vidas que fui.


Entrepresas, me disse à socapa:
– Nada sério, disso não se trata:
Venho buscar emprego,
qualquer faculdade em beira de estrada.

Havia morado de favor,
nos fundos, na casa de um pastor.
Mas do aluguel não pagava nem dízimo:
ínfimo,veio em missão de paz.

Eu disse que haveria um problema:
– A função do Diabo é a guerra.
Mas depois de uma longa assertiva,
concordou que plantava umas armas
(Mas a Guerra, é o que o humano cultiva).

Avisei que à esquerda, no escritório,
havia uma brecha na prateleira.
Alí guardava meus deuses em jaulas,
junto aos meus livros de poesia e besteira.

E me disse:
– Sem problemas! O Diabo é cosmopolita!
(Os deuses é que são bairristas:
cada um diz, que é só ele que apita).

Agora, quando chego em casa,
encontro o Diabo na internet:
lendo Baudelaire e descascando uma punheta...

Mamãe e as visitas estranham:
– Onde já se viu? Isso não pode!
E, entredentes, eu rio:
– O que se esperava de um bode?

E é Ele que alimenta os companheiros,
naquele cárcere de biblioteca:
os livros de versos malditos,
os deuses nada cosmopolitos,

E replica:
– A função do Demo é alimentar a fé.
(E no meu castelo proletário,
ele bem que sabe,
que a demissão, por aqui, come até).

E além do mais, é justo ele folgar da gaiola:
ele é bem comportadinho,
sabe bem o seu lugarzinho,
seus pézinhos de cabra lhe dão um ar de pet.
(E meus amigos, sempre bêbados,
fazem piada e o chamam: "Capet").

Além do mais:
É amizade certa para a hora do vinho.
Quando possui a patrôa, formamos uma trindade-à-trois.
Companherão de casa: odeia banhos de sol, passeios pelo parque.

Aos 33 me fiz mais completo.
Aos 33 me fiz mais Mefisto.
Coitado foi Jesus!

Se criasse seus deuses em jaulas,
Se tivesse comido a patrôa,
(E se tivesse bebido mais vinho...)

Talvez tivesse impedido:
suas Guerras, seus Deuses e a Cruz.

~o0o~

Special Tks to the great photographer Theobald Bloom, for the goat's Photograph. (It's just perfect, isn'it?)

See this, and others works from Theobald Bloom in: http://www.flickr.com/photos/theobald_gloom/

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

MENSAGEM NA GARRAFA


a Goethe.



Vi ao longe, incerto, um homem na garrafa.
Eu e estrelas de tão longe vindos,
nem eu nem elas tampouco recordava
a armadilha incerta de todos os instintos.

Ao longe, uma mulher, disseram-me ser minha.
(Decerto bela que todos estupefatos).
E no canto à mente, de todos os retratos,
me fremia um calor contíguo à espinha.

Mas entre todos, quem eu era?
(e me vi aterrorizado)
Não mais supunha os passos
que em mim continha.

Só vi, aéreo, a musa que eu não tinha
e bêbado de horror me vi sozinho:
(Era eu o desgraçado na garrafa!)

Homem feito mensagem:
(um desgarrado em nau de náufrago)
testemunho último de um sonho imerso,
relato vão de voz em cárcere.

(– Pudera ter vivido um sonho intenso
num beijo em tua boca à estibordo?)

Fui soldado, albatroz ou âncora,
que se fez mensagem em eu garrafa?
E a musa que o poeta canta,
era minha e não podia ser tocada.

Assim é o homem que se fez palavra
(fala de amor, mas só se vê garrafa)
Não tem passado, que por glorioso seja,
nem tem futuro, adamastor em canto atlântico.

É do próprio código que eu lamparino o todo.
É da garrafa que, palavra, inundo
sem sacarrolha o meu grito mudo,
me fiz mensagem de presente surdo.

E meu canto, sempre mundo
E meu mundo, sempre estreito
ao pé da musa, ganha vulto
no céu de estrelas que ela tomou por leito.

E que ilumina toda minha estrada
Mar sem conforto, nem acostamento.
Mas ela sabe, à distância sabe,
Que não é mar de contentamento.

E ela sabe, à distância sabe,
que na prisão de uma garrafa,
é dalí que pra ela canto,
é alí que com ela deito.
Naquele mar temos sim um leito:
Aquele mar, que nos espelha o céu.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

OVERCOM - II

“Quase como delírio, sonhava com a correnteza do rio”

Todo fadado a me falar em verso,
um outro modo prá versar-me ouro?
Um canto n’água meio controverso,
Um pouco auto de um móvel-alvo.

No meio há lago que apresenta duplo
o sentido humano, o respeito fado:
eu vejo bombas, deuses, e um charuto
e penseroso de conter eu ato.

Epifania ou dor à contraverso,
vomito ao mundo mudo desprosáico
O que fazer diante deste quero?

Quando contorce o céu todo ao meu lado,
só vejo escravos, lodo, eu sou marreco
e a flutuar no centro: eu sou o Lago.

(Herr Sandmann e o coro de Anjos)

So put your feet in the water
put your hand in the water
put your soul in the water…
And join me for a swim tonight!

Não sou não posso e tão assim não quero
quero de volta o universo tato
não posso ser aceito assim é certo
enquanto em cada som houver um mago.

(Dioniso & Hades em coro no céu)
Your Love is strong!
‘N you’re so sweet
‘N someday baby,
We’ve got to meet!

Quero de volta o microcosmo quieto,
quero envolta o ouro em tolo métrico:
não quero solo o transtorno ávido,
tampouco colo prá chorar quieto!

Eu quero, ocas, todas bruxas longe
Eu quero alísio vento prá meu barco,
(mas doutro lado vem você e responde:

- Ó Rei de Tebas vem pro colo acre,
não passe ao lado de teu sono aonde:
quem dorme esmaga teu destino quando

Não ouve a Esfinge? A tua mãe alarde!

Dai’t’Om Overcom! Daí’t’Om Overcom!
Dae Lastoni quae esti preparatur
Die Regula d’organonnicciatur
Mit’Onna noi Alegra di Tuo Som!

OVERCOM - I

No ano de nosso senhor de 2910, atesto a Ti, noss’Daemonfater Guiamor de Noss’Terras, o descobertamento de mais um arqueolossítio pertencente ao nosso período Prébellicáe.
Como os demais, este possui vestígios de sacrifício humano e animal e situa-se no Acropoliz de montanha. No capitel acropolíneo as inscrições em Português-Selvagem preenchem cada minúsculo espaço de cada parede de todos os templos e, estão tão belamente preservadas, que nossos lingüistas afirmam se tratar, este sítio, do mais belo compêndio literário-político de todas as Comunidadelástone de que se tem notícia até hoje.
No Karios’Zigurath, eis um grande diferencial dos demais lástonessítios, há um conjunto de 2 lagos estranhamente colaterais: ambos medem exatamente 3,80 metors, suas águas são extremamente limpas e azuis, ambos apresentam suas internoparedes como que recobertas por grossas camadas de muco. Seus interiores mais parecem um baleiostoma pronta a nos engolir, ouainda naves de catedralgóticas: nossos mergulhadores entravam em suas gargantas, usando as primeiras costelespinhas como escadas. Próximos entre si, como num oito (∞), eles parecem ser comunicáveis, mas nosso último mergulhador desistiu da busca: faltava linhaguia, esquentava e esfriava muito, sucessivas vezes, quanto mais aprofundava no líquido. Luzes irisavam de dentro, quando neles entraram, mas não encontramos nenhum tipo de instalação elétricoenergóica; nossos laboratórios confirmaram a presença de zoo e fitoplânctus biolucíferos: desconhecidas espécias de nossa Faunoflora.
Nas bordas circundantes do lagohoito (como os pesquisantes estamos chamando), bordam escritos iniciáticos comuns aos Lástones de toda Noss’Terrantiqüa: a riqueza arqueológica deste sito é tão vasta que, finalmente, temos materialfonte necessário às nossas investigações.
O texto bordante, ainda não descriptado, segue abaixo:

Dai’t’Om Overcom! Daí’t’Om Overcom!
Dae Lastoni quae esti preparatur
Die Regula d’organonnicciatur
Mit’Onna noi Alegra di Tuo Som!

Parece mui bonito, um canto coral, um cantomago talvez?


Sem mais, despeço.
Saudações de teu amigoservo,
Prof. Dr. Hermes de Saavedra

______________________________________________________________________
Montanhas da Lunna, 02 da Marcial, de 2910.

domingo, 6 de dezembro de 2009

CARCAÇA

No começo era bom.
Carícia como corpo novo.

Depois, incômodo engodo,
quente,
roçando forte num barulho surdo, seco.

Urticária em brasa:
arrancar colheradas de carne,
deixando sangue exposto em véu baunilha,
seque ou coagule,
coloca à mostra carapaça seca:
casca bruta no brasão das fendas.

Não quero mais coçeira,
Não quero mais a capa grosseira,
tosca,
culpa sem remédio, vício por trás das vistas.

Não quero mais a sina exosqueletiando:
quelônio em modorra,
resto de escolha não tida.

Carapaça,
Carapaça...

E essa carcaça
Mordaça.

E é ela,
Ela.
Víscera.

domingo, 29 de novembro de 2009

FELIZ COMO DOS MARGARITAS


Amarrou a chuteira. Ajeitou a meia. Era hora. Bola, goleiro, torcida, eu, tv, cerveja: e nunca assistia jogos de futebol (experimentava ser brasileiro numa quarta sem quarto de namorada).

Correu, olhou a bola, ajeitou de trivela: parou engasgando à bola. Olhou. Goleiro olhou. Torcida olhou. Juiz nada fez. Parei (a cerveja no beiço). Desliguei a tv, nem dei bola.
Computador. Quarto. Copo de whisky. Página em Word: sem palavras. Cem palavras e fui à net conferir notícias. Comentavam o jogo: jogo parou. Não teve pênalti. Não teve gol. Não teve bola, não teve grito, não teve replay, não comentários sobre time, chamadas de telejornais, besteiras de comentarista: não teve nada. Nada.

Mas era o nada que cheirava coisa. Coisa grande e forte que cheira e cheira. E o nada corria que nem cheiro de rango na hora do almoço. Pessoas saiam às ruas: sem pressa. Simplesmente saíam. Na tv, o jogo sem narração: mas não havia jogo, invadiram o campo. Não houve violência, nem corre-corre. Invadiram para invadir. Para ver o campo de perto. Queriam confirmar a realidade real do campo-verde-altar, como quem confirma falando sozinho com deus no céu. E naquele dia o céu era verde: verde do campo não-jogo, verde do país não-Brasil, verde da esperança não-burra.

Nas ruas, as praças ferviam como naquele campo verde. Sem corre-corre, invadiram para invadir. Confesso que saí tomado por aquela coisa verde, por aquele cheiro de almoço mágico que alimentava pelo ar. Um gosto de riso, num embrulho de apocalipse.

De lado a outro, o desejo por pessoas. Simplesmente começávamos a sentir cócegas uns pelos outros. Uma vontade por pessoas que desconhecíamos até então.

Naquela quarta-feira, a feira parou, o prédio parou, o trem parou e a igreja também. Enquanto ainda havia jornalistas, um deles falava na tv sobre a Praça. Tava cheia. Sempre cheia. Mas, dessa vez, o senhorzinho vestindo terno e bíblia, deixou a bíblia, desafogou o terno e, terno, conversava sem pretensões com um padre e com um corintiano egresso do jogo. Entre eles, sem verdades, mil veredas e, ainda assim, nenhum deus. A salvação não dava mais aposta, o futebol não adoçava a boca.

Havia uma ira, irônica, gerando cócegas nas vaidades... O repente tornou-se esporte nacional! Um vírus extirpava a candura das coisas. Recusava-se a vida como conivência. As novelas broxavam no ibope. Casas lotéricas abriam falência. Acho que o mundo enjoamos do mito do lugar exótico, dos saudosismos do que nunca fomos. O caldo em que nos afundávamos, a priori tão alienígena, era a reação convulsiva às nossas vidas de garrafas-plásticas, de avencas de apartamento, de telemarketing temos-muito-para-estar-enviando, de informações à wikisource.

Crescia o suicídio entre jornalistas e políticos. A política na mão das ruas. Os partidos perderam a função. A palavra escrita pela pena do cidadão: que pena! Não havia mais fato. Não havia notícia. Não havia verdade. Não havia palavras-varinha-de-condão, analistas político-econômicos, xoxalights plantonistas do óbvio, nem décadence à Joelmir-betings: queríamos o inusitado, escritos imprevisíveis porque humanos. Nos bares, a Lei de Mecenato aos Poetas. Num helenismo de agora, o verso sobrepunha-se ao fato: a prosa falava das coisas dos homens; só a arte, a poesia versava desejos e deuses.

Naquele fim de campeonato brasileiro, o câmera da grua, no foco da tv digital, bem na frente da bola, flagrou um inseto. Todos, incertos, assistíamos. Não sei, ao certo, o que aconteceu. Acho que tivemos medo. No fim do mundo, restariam os humanos, os ratos e as baratas.

PEDRA FILOSOFAL


Minha força ariana saiu prá comprar brioches e, aterrorizada diante ao inferno da bastilha, nunca mais voltou. Amanhã eu prometo que volto mordendo a vida, lambendo sangue às saias da guilhotina. Hoje carrego livros até o vaso, rascunho adubos na sacada e, replantando, me tomo a derrota dos brancos cabelos de Maria Antonieta.
Sabia: havia que se torrar a cesta básica em livros: no final das horas duras, são os únicos que suportam a chatice. Sempre os assisto nas prateleiras fazendo putaria. E assim vou cultivando Mogwais em caixas pretas, deuses em jaulas, bodes em caixas de Skinner, do modo mesmo como quem cultiva inúteis novos copos de cerveja, das promoções que, cigarrígenas, sempre acabamos fumando.

Sei, que as pessoas deveriam se atentar mais é pro esbugalhamento do ser. Mas elas andam muito ocupadas com seus automóveis às vésperas do farol. Tenho a impressão que todo mundo deve ter uma teoria acerca da duração do verde e da permanência do vermelho (ei-nos às voltas das grandezas inversamente proporcionais). A vida e suas regras de três.

O que as pessoas não se dão conta é o tanto de vida que mora dentro do tempo entre o vermelho e o verde. É o tempo amarelo. Existe uma vida amarela que vasculha, subterrânea, todas as covardias humanas, roendo estômagos que devoram, estúpidos, todas as fagulhas de gergelim do palhaço Ronald em amarelenta letra M. Das leveduras douradas que moram nos goles de chopp, nas bitucas de pretos M(s) de cigarro-forte, degustados em avenida de desfile-de-carro-barzinho, demarcadas, arame de trincheira, em cada cenário-cidade nos dias de pós-trampo, trash-hours, de sextas à noite.

Que amarelas são as luzes dos piscas-piscas dos carros à frente e atrás, que amarelentas são as faixas de não estacione (no meio fio): tão amarelas quanto as calcinhas economicistas de réveillon. Amarelo é o gosto de AAS, de frasconetes prá fígado, das moedas de vinte e cinco centavos, das fogueiras de violões-maconheiros-bobmarleys, das faixas em kombis escolares, dos sorrisos de patrão às 16:30 (ávidos por levedura amarelenta). Amarelas são as lâmpadas das grandes avenidas e as avenidas e as praças de monumentos, as gasolinas ainda nos carros flex, os dedos dos vagabundos, com violões amarelados, em fogueiras douradas, embaixo dos monumentos amarelados de outras tantas amarelentas praças também.

Amarela é a luz do meu terraço.
A literatura é eterna como o tempo morando dentro do semáforo.
Mas as pessoas, em seus carros,
As pessoas só querem passar.

ASSUNÇÃO


Volte para trás. Vou trazer algo para você, através do texto. Geléia, Gelo, Tigela e no avesso um guisado de jibóia com jiló (à guisa, sem a receita: Gisele e Ji-Paraná). Tudo em ascendência, ascensão. Ascender ao trono, sem acender uma vela? Houve períodos que era preciso dar um jeito de ser gente. Faço porque concebo: percebo.

Concertar os erros como num conserto sonoro. Por que a necessidade da compreensão? Onde estão minhas palavras? Peça um texto coerente, peça de quebra-cabeça, e não cessa mais o porquê das coisas. Este texto fala das aberrações, das exceções, dos insucessos e reza por excessos. Onde quero chegar? Quero saciar-me aonde houver despojos, mijando bocejos à janela (não margeando, nem imaginando) e suspeitando das censuras, das vagens lancinantes de azar. Nem asa, nem casa, outros urubus (ou freiras) pressionaram as cesuras: tensão e visão fixadas em lições facínoras, fascinantes... Churrascos outros já me causaram seções de massagem e alcachofra. Jovens são insanos mesmo. Sandices com cheiro de alcaçuz, de sândalo, de paroxismos e de maços e almaços de extintor.

Esta seção encerrou-se? Outras secções em valises esponsais? Viagens à parte, viajar para onde? Pasárgada? Persépolis? Faceirices por quê? Onde encaixa teus anseios? Eles vêm para saciar tua parcimônia? Ou eles vêem os proselitismos vorazes de tuas fosforescências? Qual é a tua essência? Onde estão seus sacerdócios? Estão aonde queres que esteja. Esfinge não é objeto: é ficção, é fricção.

Em fração de conta-gotas, na facção dos semáforos sem cela, há uma causa para todas as coisas que não são sustos nem suspiros nem sinais: houve evangelhos evangelizando por toda geladeira: gavetas com cação, açafrão (não havia salsichas nem vassouras)... Um pinguim de fraque acintoso, nada jocosamente, acentuou e, ajeitando o cinto, com duas barbatanas de prosa, tomou assento para dizer: “tá russo mer’mão!” Ruim, pensei. Sem sossego, sustei o saca-rolha para tomar consciência: “Com sorte minha consorte traz-me sonhos para o convescote!”
Sempre atrasado, como toda invenção de tradição... cozinhar ou expandir finge chulo churro de soslaio (com sabor salgado de andor e procissões de Nossa Senhora da Aparecida)

Onde e Aonde, Porquês!
Intenção de tensão, de tão intenso, tece a explicação antes do teso.
Explicação?

– Na Assunção de açucenas, os risos da infância se foram: sobrou sinestésicas anestesias que, injeções de álcool, devoraram todas as artérias em golpes venais. O que fazer com o que sobrou do céu, se todos somos anjos cindidos?
E se os cupins capilares nos cavam arte-aérias? Os Ventos nos soprariam pás-lavras?

– Quiçá as levem prá longe...
– Quão longe, tão perto.

MATILHA


Tudo a matilha audaz perlustra, corre, aspira,
Sonda, esquadrinha, explora, e anelante respira,
Até que, finalmente, embriagada, louca,
Vai encontrar a preza, —o gozo— em tua bôca.
(Teófilo Dias, A Matilha,1882.)


Nós, lobos, traímos como prova de amor e nos encontramos pela porta dos fundos.
Nas aventuras que moram nos canis dos meus desejos:

A monogamia como épico, a traição como pedagogia, a experiência como o abysmo,
No papel a relação sexual. A palavra venatória como materialização perversa do crime.
A perversão estetoscópio, a fantasia esfigmômetro.
Uma obra não se escreve do dia para a noite. Nem a vida.

...Havia um poste de seios a mostra, ocultando, sexy,
As curvas de minissaia, acenando as cintas-liga.
Há uma freira de calcinhas escolásticas nos sonhos e nos estúdios de tatuagem.
Como não percebes que a fidelidade é a mais viril das perversões?
Há uma gota de sêmen em cada volta de dedos que a garota motorista dá
Em suas madeixas de sinal fechado... E como dá gostoso!
Há uma ponta de incêndio em cada vão dos meus pentelhos
Circulando por umbigos, cus, dedos e pelos,
Queimando asfaltos, cristãos, evangélicas e códigos romanos (como um NeoNero).

A última gota de sêmen na ponta da glande,
A foto mostra uma pipa em nosso céu (o encontro tenro do meu pau em sua gruta).
Currada, a outra geme enquanto titubeio o gozo entre uma culpa e um sorriso:
Quantas mortes cabem numa ejaculação?
Quantas confissões locatárias nos quintais dos meus pecados?
Quantas mulheres outras já devorei em holocausto aos teus sorrisos?
Quantas outras infantarias de cintas-liga haverão de existir para acenar minha fidelidade?
Meu tesão pai-de-família, minha perversão sórdida de trair no teu corpo,
De gozar na tua boca, de comer todos os rabos do mundo pelo seu.

Há um gosto de vulva em cada uva. Encosto, glande, em cada úvula.
A Feroz Matilha, o meu corpo indócil, em cada célula,
Brinca, gatinhos com novelo, esfinge sorrindo enigmas,
Na folha do teu corpo onde tatuo os gozos dos meus perversos versos de traição.